Terça-feira, 23 de Setembro de 2008

Uma história que vos deixo.

Hoje vou transcrever uma história que escrevi em tempos no Blog “Quem Conta”. Este espaço é de uma amiga, onde se propõe contar uma história a partir de uma palavra ou frase lida ou ouvida de alguém. O texto que vão ler, criei-o a partir de um texto anterior da Blogger sobre a “cara ou coroa” e porque sabia da intolerância desta amiga ao feijão-frade quando miúda.

 

Esta iniciativa tem por objectivo “picar” a Liana para que volte a dar vida a este espaço, tão bonito e criativo.

 

Com a devida autorização aqui vai ele.

 

“Feijão Frade.

 

Afinal tudo não passa de uma teimosia, pensava ela, enquanto tamborilava os deditos no tampo da mesa, esperando desesperada que a mãe lhe colocasse o prato da sopa à sua frente. Desde que transpusera a porta da rua, o aroma que chegava da cozinha, adivinhava o martírio de ter de aceitar aquela ementa.

 

Afinal tudo não passa de um jogo de poder maternal, e isto pensava ela enquanto esperava agonizante, na mesa de casa de jantar, que a mãe lhe colocasse o prato da sopa de feijão de duas caras.

 

Cheirou à sua volta e sentiu que por vezese os aromas se tornam tão familiares que  deixam de ser reconhecidos de imediato.

Só quando sentia aquele cheiro, no limiar dos mais horrendos alguma vez sentidos por uma jovem na flor da idade, reconhecia que todos os outros odores, por menos agradáveis que fossem, existiam e eram sempre melhores que aquele cheiro a sopa de feijão frade!..

Dos sabores dos alimentos de verão, ficavam no palato os mais fortes, como nas tascas onde se confeccionam os petiscos mais apetitosos. Gente dos copos, sentada numa mesa de mármore, em frente aos pratinhos das confecções apaladadas e cheirosas. E as palavras a soltarem-se por ali, atrás do aroma de um tinto carrascão.

 

Afinal isto é mesmo uma teimosia escolhida sem pesos mas na medida de provocar a vontade da menina,  em que o prato da balança tende sempre mais para um lado, a mãe, embora as chances da menina sejam completamente .... nulas!

 

O prato da  sopa aterrando mesmo á sua frente, em violento solavanco, espelhado nos salpicos deixados sobre a mesa, fazia transparecer a ira daquela mãe sempre carinhosa, mas inflexível no exercício do poder que lhe lhe foi conferido.

 

Não tinha jeito argumentar a favor ou contra!

Por isso deixava que as colheradas lhe fossem dadas, sempre atulhadas, raspando pelos lábios para aproveitas os fios de sopa que caíam pela contrariedade, mas que tinham de ser carinhosamente aproveitados para nada se desperdiçar.

 

O olhar daquela menina, enquanto mastigava aquelas cascas escorregadias, fixava-se naquelas formas amosquitadas que boiavam e repugnavam. Ela sabia que eram os olhos!...

Mas como é possível a uma criança, a quem se ensina a construir a sua própria personalidade, dar-se um alimento de duas caras?...

 

Pior ainda, é a dúvida com que uma criança fica, pois nunca sabe qual das caras está a comer.

 

- Mas as crianças, porque as fazem sofrer assim?

Bastava uma sopinha de feijão de uma cara!... Não era necessário ser logo de feijão com duas caras!...

Os santos, de quem todos se lembram quando troveja, já tinham ido de férias até à praia da Vagueira. E o feijão, com dois olhos ao lado, boiava dentro da colher, na esperança de um dia dali caír

 

Tudo uma questão de paciência, pensou de novo, porque as duas hipóteses estavam ali, uma em cada cara do feijão!

 

Agora bastava esperar que a colher entornasse!.. e depois, escolher em qual das duas caras dar a chapada da vingança.

 

A colher inclinou-se. Imobilizou-se em frente da sua boca. Ali estava o feijão de duas caras. Ela não sabia qual escolher. Ainda pensou se não haveria uma mais bonita que a outra, para o castigo ser mais sentido.

 

De repente parou!...

Pensou!...

E ... perguntou:

- Mãe, porque é que há sempre um dos dias da semana, que tens uma cara diferente da dos outros dias da semana?...

 

A colher caíu de repente, pousou-se no prato. Abraçaram-se as duas.

 

A cara da mãe, passou a ser sempre a mesma

 

 

(Porque as histórias têm sempre um final feliz)”

 

 

Liana, volta em breve!

 

publicado por Tretoso_Mor às 09:44
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Terça-feira, 19 de Agosto de 2008

As TRETAS das brincadeiras dos miúdos.

No meu tempo, que não é assim tão longínquo como isso, as brincadeiras baseavam-se fundamentalmente em jogos de rua, utilizando o espaço e o nosso corpo, como instrumentos para a brincadeira, socorrendo-nos frequentemente de brinquedos artesanais, feitos por cada um de nós na maioria das vezes.

 

Recordo-me da apanhada, do jogo do salva, da cabra cega, do esconde-esconde, do jogo do alho, do futebol (muitas vezes com bolas de trapos), do rugby, neste caso para falar de alguns dos jogos simples e quase sem necessidade de brinquedos.

 

Claro que havia também o jogo do mocho, da malha, as rodas de motoreta conduzidas com um pau, ou as rodas mais pequenas, muitas vezes aros dos arados, conduzidos com um arame comprido com meia-volta na ponta inferior. Recordo-me ainda das tábuas ensebadas, dos carrinhos de rolamentos, das trotinetas de madeira (feitas também com rolamentos) e das bicicletas e das sempre problemáticas corridas e gincanas que fazíamos.

 

Havia ainda as fisgas, as afundas, as canas de pesca (canas dos canaviais com um fio e anzol na ponta), que nos permitiam introduzir as práticas da caça, da pesca e do tiro ao alvo.

 

Hoje em dia, claro que os miúdos não conhecem nada disto. São os jogos da Playstation , Xbox, computador, telemóvel, que os entretêm.

 

Resolvi estas férias desafiar o meu sobrinho, com 12 anos a fazer uns joguinhos na Playstation2 (PS2).

O futebol já eu tinha tentado em tempos, mas nunca me entendi com os botões. Quando dava por mim, estava a dar cacetada nos meus jogadores, ou a meter golos na própria baliza.

 

Resolvi desafiá-lo para umas corriditas de carros. Como ele ainda por cima tem um jogo novo pensei que, não conhecendo as pistas, lhe poderia levar alguma vantagem.

Qual quê!... Levei uma tareia, que quase dava para ele fazer duas corridas seguidas, enquanto eu fazia só uma!

 

Fui para casa e, na minha PS2; sim porque também comprei uma o ano passado, para tentar jogar uns jogos de estratégia. Claro que ainda não joguei, pois não tenho paciência para ler as instruções dos jogos; treinei um pouco num jogo antigo de corridas que o meu sobrinho tem. Aquilo não estava a resultar, até que descobri a forma de o vencer!... Yesssss!….

Há uma opção naqueles jogos, para conduzir o carro com mudanças manuais, em vez de o fazer com caixa automática. Treinei um pouco e no outro dia desafiei-o para nova corrida.

Ele preparou-se, mas informei-o que teria de correr com mudanças. Ele não gostou da ideia, embora eu lhe tivesse explicado com funcionavam as mudanças e o tivesse posto a correr numa pista para treinar.

 

Eheheh!...

Esfreguei as mãos de contente e começámos um campeonato!...

Bolas!.... Em cinco provas, só ganhei uma, a primeira!

 

O miúdo, com uma destreza de dedos impressionante, e uma coordenação motora notável, bateu-me como quis!

Mais, tínhamos de preparar o carro, de acordo com as características da pista. Os aspectos técnicos estavam em Inglês. O safado do rapaz, até a preparação do carro acertava!...

 

Acabei por ficar a pensar se esta nova modalidade de jogos é assim tão nociva quanto muitas vezes pensamos.

Claro que há jogos e jogos!...

Claro que há o tempo que os miúdos gastam agarrados à “máquina”.

Claro que há um isolamento natural das crianças, até porque estes jogos admitem um número muito restrito de participantes.

Claro que há a falta de contacto com a natureza.

 

Mas se soubermos ajudá-los a escolher os jogos, a gerir o tempo ligados ao jogo e a gerir participação de um grupo, até que nem são assim tão maus!

 

Bom, agora só me resta, pô-lo a jogar comigo um jogo de estratégia, e esperar pelo resultado final!..

 

Ai, ai!.... Nem quero pensar no que pode acontecer!

 

Só depois o vou desafiar para jogar alguns dos meus jogos tradicionais.

 

 

publicado por Tretoso_Mor às 09:40
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